Pílula pode reduzir risco de contaminação por HIV

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Ésper Kallás é médico, professor de Imunologia Clínica e Alergia da Universidade de São Paulo.

Em novembro de 2010, um estudo divulgado no The New England Journal of Medicine, uma dos mais conceituadas publicações na área de pesquisa médica, revelou uma das maiores promessas para o combate à transmissão do HIV: uma pílula que reduz em 43,75% o risco de contaminação pelo vírus da Aids.

Equipes do Peru, Equador, África do Sul, Estados Unidos, Tailândia e Brasil acompanharam 2.499 homens e transexuais femininos que mantinham relações sexuais com outros homens e tinham perfil de alto risco. Durante dois anos e meio, metade tomou o Truvada, uma pílula composta por dois medicamentos usados nos coquetéis para tratamento de Aids, e metade tomou um placebo. No final do estudo, no grupo que tomou placebo, havia 64 infectados e. no que recebeu Truvada, 36 infectados.

O infectologista Ésper Kallás, integrante da equipe brasileira que participou da pesquisa, falou ao site do Dr. Drauzio Varella sobre as perspectivas para os métodos de prevenção contra a Aids a partir dos resultados obtidos nesse estudo.

Site DV Por que o estudo foi conduzido somente com homens homossexuais?

Ésper Kallás – Porque a agenda de pesquisa de profilaxia para exposição  ao HIV começou com mulheres. Na verdade, os primeiros trabalhos concebidos nesse sentido foram realizados no Camboja e em alguns países da África, sempre envolvendo homens heterossexuais ou mulheres. Os homens homossexuais estavam fora dessa agenda de pesquisa. Como os homens que têm múltiplos parceiros, especialmente os que praticam sexo com travestis e transexuais femininos, constituem um grupo muito vulnerável à doença, consideramos boa ideia expandir a agenda de pesquisa para esse grupo.

Site DV – Não se faziam pesquisas incluindo esse grupo de homossexuais?

Ésper Kallás – Pesquisas que envolviam homens homossexuais enfrentaram problemas. Algumas foram interrompidas; outras retardaram a divulgação dos resultados, pois até o momento não foram concluídas. Por isso, o estudo em questão acabou ganhando destaque.

Site DV É comum as pesquisas verificarem os efeitos preventivos de medicamentos que já são usados no tratamento das doenças?

Ésper Kallás - Essa foi a primeira vez que se empregou o uso de medicamentos preventivos contra a transmissão sexual consensual. Remédios desse tipo são usados, há muitos anos, em outras circunstâncias. Por exemplo, para prevenir a transmissão vertical do HIV durante a gestação, para evitar que uma enfermeira seja infectada acidentalmente com material contaminado, nos casos de estupro, ou quando casais em que um é soropositivo e outro é negativo mantiveram uma relação com penetração e sem preservativo. Esses casos preenchem os critérios padronizados pelo Ministério da Saúde para distribuição do que se chama de profilaxia pós-exposição. Entretanto, é a primeira vez que um estudo demonstra a proteção com o uso de remédios antes de a pessoa se expor a uma relação sexual.

Site DV Segundo o relatório do estudo, parte dos indivíduos analisados tomava a pílula de forma irregular. Isso significa que a eficácia do comprimido pode ser ainda maior?

Ésper Kallás – A eficácia é tanto maior, quanto melhor a pessoa seguir a prescrição. Verificamos o que se chama de plausibilidade biológica, ou seja, quanto mais corretamente o indivíduo tomar a medicação, melhor é o efeito do remédio. No geral, houve uma redução de 44% na infecção pelo HIV, mas naqueles que tomaram mais de 90% dos comprimidos, a redução chegou a 73%.

Site DV Quando foram divulgados os primeiros resultados da pesquisa com a vacina RV144, a proteção anunciada era de 31%. Posteriormente, esse número foi revisado e reduzido para 26%. Algo semelhante pode acontecer no caso do Truvada?

Ésper Kallás – A pesquisa do RV144 foi realizada na Tailândia e, durante o estudo, oefeito de proteção foi considerado muito modesto. Em uma sub-análise, o efeito observado foi de até 60% no primeiro ano, mas depois caiu. No momento, está sob investigação para verificar a possibilidade de fazer outra combinação de vacinas a fim de atingir um resultado melhor. Já o remédio do nosso estudo demonstrou ser eficiente, enquanto o indivíduo usar.

Site DV Quando um indivíduo relatava que havia se exposto ao vírus, era encaminhado para exame e tratamentos pós-exposição. Tais medidas não podem ter diminuído o número de infectados e influenciado o resultado?

Ésper Kallás – É obrigatório adotar sempre o que há de melhor na norma vigente, que é a seguinte: se uma pessoa se expôs ao vírus, é candidata a receber profilaxia pós-exposição. Metade dos participantes estava tomando placebo, então não se podia privá-las de receber um remédio após exposição confirmada de risco ou de altíssimo risco. Por isso, em tais circunstâncias, a pessoa saía do estudo, recebia o melhor remédio disponível e depois voltava para o estudo.

Site DVOs medicamentos que compõem o comprimido fazem parte do coquetel oferecido pelo SUS?

Ésper Kallás – Eles fazem parte do coquetel oferecido em muitos países. No Brasil, a entricitabina tem um equivalente genérico muito mais barato. Por isso, o programa brasileiro não investiu na sua compra. Já o tenofovir, que completa a pílula, é um dos remédios mais usados no coquetel para pacientes que vivem no Brasil.

Site DV O remédio em estudo seria de alto custo?

Ésper Kallás – É uma questão que vai para o lado da saúde pública de forma geral e das políticas de assistência à saúde. A execução de determinado investimento depende do benefício que se tem como retorno. Nós só teremos a resposta sobre esse custo-benefício depois que concluirmos a próxima etapa do estudo.

Site DV Quais são os próximos passos?

Ésper Kallás – Esse é um estudo cujo resultado vale em situações de pesquisa muito controladas. Os voluntários faziam teste todos os meses, recebiam aconselhamento pré e pós-teste, faziam exames para DST, recebiam preservativos, géis e orientação para a prática de sexo seguro. Tal conduta representa o que se tem de melhor em profilaxia.

O que ainda precisamos saber, no entanto, é se o que vimos nesse estudo pode ser transposto para situações em que a pessoa conta somente com os cuidados do dia a dia. Essa é a próxima etapa do trabalho. Se nós, ou outros grupos, demonstrarmos que é possível manter esse tipo de proteção em situações do cotidiano, acho que essa intervenção tem muita chance de ser adotada pela saúde pública para os grupos de pessoas de alta vulnerabilidade.

Fonte: Drauziovarela.com.br

Data de criação: 03/02/2011
Última atualização: 03/02/2011

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1 Comentário Publicado

  1. karla larissa moreira costa disse:

    fikem sempre alertanado porke hoje em dia o mais tem e pessoas com varios tipos de doenças

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