ONG da mãe de Cazuza completa duas décadas, e falta de recursos é a maior preocupação

28/03/2010 09:40

A mãe do cantor e compositor Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, Lucinha Araújo, lembra em 2010 os 20 anos da morte dele, por causa da Aids. E comemora as duas décadas da ONG Viva Cazuza, que hoje cuida de 20 crianças soropositivas e dá tratamento a outros 150 adultos. Em entrevista ao Correio, Lucinha diz que a doença saiu de moda e foi banalizada pelos jovens. Ela culpa a atual política de combate à enfermidade. Muito devagar, quase parando.

Lucinha lamentou que o governo federal nesses quase oito anos tenha liberado apenas uma emenda parlamentar para a ONG. A entidade custa em média R$ 70 mil por mês e vive com dificuldade. “Já mandei uma carta para o Lula e ele respondeu, em dezembro do ano passado, que ia liberar tudo. Já se passaram três meses e continua na mesma.

Apesar de todas as dificuldades, Lucinha revela que sua vida mudou completamente depois da morte do filho, em 7 de julho de 1990, e da criação da ONG, em 17 de outubro do mesmo ano. “Sou outra pessoa. Ninguém passa pelo que eu passei e continua igual. Parei de olhar para o meu próprio umbigo e fui olhar para outras pessoas.”

Luta difícil aos 20 anos

Pontapé inicial
Achei que nunca mais queria ouvir o nome Aids. Mas o Betinho (o sociólogo Herbert José de Sousa) ligou para o João (marido de Lucinha e pai de Cazuza) me convidando para trabalhar com eles na luta contra a doença. A princípio recusei. Mas aí, em 17 de outubro de 1990, os artistas fizeram uma festa em homenagem ao meu filho no Rio. Fui e achei ótimo. Decidi levar o dinheiro arrecadado com a apresentação ao Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, que tratava pacientes com Aids. Mas os médicos disseram que não desejavam apenas o meu dinheiro, queriam a minha participação. Aí que surgiu a ONG. Dois anos depois recebi a cessão de uso de um terreno no bairro das Laranjeiras do então prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) e fundei a Sociedade Viva Cazuza.

Direitos autorais
O direito autoral do Cazuza está cada vez menor. A venda de CDs e o direito autoral não chega a 20% dos custos da Sociedade Viva Cazuza. Além das 20 crianças que vivem aqui em regime de internato, temos 150 pacientes adultos que recebem remédios, cestas básicas e orientações de como fazer o tratamento de forma correta. Gasto em torno de R$ 70 mil para manter a ONG. Só com a folha de pagamento preciso desembolsar 50% desse valor. E também pago escola particular para todas as crianças. Uso o nome do Cazuza para conseguir ajuda e me socorrer.

Emendas
No governo Fernando Henrique Cardoso conseguia receber tudo. Mas na gestão do Lula só liberaram uma emenda. Procurei os ministros da Saúde Humberto Costa e José Gomes Temporão e nada foi resolvido. Depois, decidi pedir aos deputados amigos para fazerem emendas também ao Ministério do Desenvolvimento Social. Fui pessoalmente conversar com o ministro Patrus Ananias e ele disse que ia me ajudar. E só ficou na promessa. Não sei o que está acontecendo. Já mandei uma carta para o Lula e ele respondeu, em dezembro do ano passado, que ia liberar tudo. Já se passaram três meses e nada.

20 anos
O George Israel (saxofonista do Kid Abelha), parceiro de Cazuza na canção Brasil, está fazendo um disco para lembrar os 20 anos da morte. Eles criaram 17 músicas juntos, sendo duas ainda inéditas, e que serão gravadas nesse CD. O trabalho vai contar com as participações de Elza Soares, Marcelo D2, Sandra de Sá, Maria Gadú, e Ney Matogrosso. Além disso, vou lançar meu terceiro livro para contar a história das 67 crianças que já passaram pela ONG. Ainda não escolhi o nome.

Futuro
O preconceito diminuiu muito com o tempo. Porque não adianta desprezar uma pessoa com Aids, uma vez que a doença está aí e não vai ter cura tão cedo. Então todo mundo tem a obrigação de saber como se pega e se previne. Apesar de todas as crianças que cuido estarem muito bem de saúde, me preocupo com o futuro delas. Por enquanto, nenhum deles trabalha. Quero que estudem e cresçam profissionalmente para ter uma renda boa.

Adoção
Penso diariamente em adotar. Tem um menino que chegou aqui com 1 mês e hoje tem 16 anos. Mas tem a barreira do meu marido. Não posso fazer sem o consentimento dele. Esse garoto não tem pai e nem mãe e não conhece ninguém da família biológica. Ele sabe que é meu. Assim como ele, não vou abandonar os outros que cuido nunca. Mas meu marido é contra porque acha que está velho para cuidar de uma criança ou adolescente. A vida inteira quis adotar. Tive o Cazuza e mais nunca consegui ter outro filho. Fiz exames, tratamentos, e nunca mais engravidei.

Fora de moda
Acho que a Aids saiu de moda. As pessoas se esqueceram da doença. Com esses remédios (antirretrovirais) modernos, as pessoas não ficam mais acabadas como antigamente. Todo mundo aqui, por exemplo, tem boa aparência, são saudáveis. E aí reside o perigo. As pessoas voltaram a se contaminar e não estão se cuidando. Ficou banalizado. Os jovens transam sem camisinha e depois vão às farmácias e pedem um coquetel e pronto. Não é assim que funciona. Deveria haver uma campanha constante. Só ocorrem ações no Dia Mundial de Combate à Aids e no carnaval. Como saiu de moda, as doações também se reduziram.

ONU
Eles adoraram meu projeto, mas querem que participe de um programa de formação de jovens líderes. Isso eu faço aqui sozinha. Preciso de gente para trabalhar comigo e dinheiro para pagar os salários dos funcionários. O Temporão (ministro da Saúde) esteve aqui e ficou apaixonado. Mas na hora do vamos ver, emperra. Também já recebi diversas visitas do UnAids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids). Todo mundo fica encantado. Mas ponto final. E a ajuda não chega.

Combate à Aids
A política brasileira mudou muito. Acho que está muito devagar, quase parando. Já foi melhor. O Brasil sempre foi modelo internacional no combate à doença. E, hoje em dia, saiu de moda aqui.

Terapia
Não tem nada no mundo melhor do que trabalhar. Se não tivesse montado a ONG não teria vivido. Não teria sobrevivido a morte do meu filho. Venho aqui todos os dias. Metade da minha vida passo aqui e a outra metade com meu marido. Adoro estar com as crianças.

Copa do Mundo

Vivo pedindo às autoridades que façam algo para conter a disseminação da Aids durante as copas do Mundo da África e do Brasil. É importante uma ação preventiva contra a doença. Não sou ninguém. Tenho apenas uma ONG.

Ciúmes
Trabalho na Viva Cazuza de segunda à sexta-feira. Apesar de o meu marido achar linda a ONG, ele tem ciúmes do trabalho que desenvolvo aqui. O João não gosta que eu chegue em casa tarde. Por isso, agora estou me policiando. Mas, mesmo assim, telefono todo sábado e domingo para saber se está tudo bem.

Marcelo Dourado

Esse integrante do Big Brother Brasil (BBB) prestou um grande desserviço ao afirmar que só viado pega Aids. E que mulher não se contamina de homem. E que homem que é homem não pega. Estou esperando ele sair da casa para convidá-lo a tomar umas aulas aqui com trabalho voluntário. Ele tem a obrigação de saber como se pega Aids. Ninguém pode deixar de saber, porque ele (HIV) está aí e pode bater na sua porta. Fiquei incomodada. Já que ele está tão famoso, deveria ser um multiplicador e passar a informação correta à população.

Fonte: Estadão

Data de criação: 31/03/2010
Última atualização: 31/03/2010

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2 Comentários Publicados

  1. Cristina Machado Pinto disse:

    Sou admiradora do trabalho desenvolvido por vocês Sei o quanto é difícil tratar uma possoa soro positivo. Tenho um sobrinho que não aceita ser Aidético, principalmente porque entrou para o mundo das drogas. Depois de algumas tentativa de interná-lo, para receber o tratamento da AIDS, está melhor. Enquanto ficar lá no GEDAE(Grupo Espirita de Ajuda aos Enfermos), na cidade de Juiz de Fora, fica sem o crak, mas a familia não sabe até quando ele ficará internado. Nosso temor é que fuja mais uma vez..
    Boa sorte a toda a equipe . Que Deus os ajude nessa empreitada.

  2. danilo disse:

    vc fas bem em apoia pessoas como a mãe de cazuza melhoras pro seu sobrinho bjs danilo

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