Lógica de filtro anti-spam é utilizada para pesquisa de vacina contra HIV

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Pesquisadores buscam vacina contra o vírus HIV a partir de modelo teórico usado em filtros antilixo eletrônico

Quem começa o dia xingando a quantidade de mensagens indesejadas a entupir a caixa de e-mail encontrou um motivo para se orgulhar do seu lixo eletrônico. Este incômodo diário pode estar ajudando a resolver o maior desafio da medicina dos últimos 30 anos. Pesquisadores associados à Microsoft Research, braço da gigante americana de informática para pesquisa científica, trabalham para usar o modelo teórico que possibilita a existência de filtros anti-spam em uma pesquisa na área médica. O objetivo é desenvolver uma vacina contra o vírus HIV.

David Heckerman, diretor sênior do Grupo de Ciência da Microsoft Research,é o coordenador do projeto PhyloD. Doutor em Ciências da Compu¬¬tação e formado em Medicina, ele relata que, a princípio, houve certa desconfiança em relação à premissa inusitada que relacionou e-mails de propaganda com o vírus da Aids. “Quando comecei as pesquisas sobre HIV, as pessoas di¬¬ziam que o meu objetivo era evitar as mortes causadas pela Aids e, com isso, preservar clientes em potencial para a Microsoft”, brinca ele. “Acredito, na verdade, que a informática e a biologia têm conceitos similares que podem ser intercambiáveis”, afirma.

Heckerman esteve no Brasil nesta semana para apresentar o projeto PhyloD pela primeira vez no país. A palestra ocorreu durante o Faculty Summit América Latina 2010, simpósio de inovação tecnológica e científica promovido pela Microsoft e encerrado ontem no Guaru¬¬já, litoral sul de São Paulo.

Em 1997, Heckerman criou o primei¬¬ro programa para detecção e filtragem de spam, posteriormente oferecido como um serviço do Hotmail. O princípio teórico dos filtros anti-spam, que funcionam pelo método do conhecimento acumulado, é o mesmo até hoje. He¬¬cker¬¬man e sua equipe perceberam que, apesar de os spams serem muito diversificados entre si, havia algumas expressões que necessariamente teriam que aparecer para que a mensagem fosse compreendida pelo leitor. “Os spams, basicamente, querem nos vender alguma coisa. Se, por exemplo, alguém en¬¬via uma mensagem em massa buscando clientes para um medicamento contra disfunção erétil, o texto obrigatoriamente conterá as palavras “Viagra” e “comprar”. A máquina de detecção apren¬¬de essa informação e, quando ler essas palavras juntas na mesma mensagem, vai perceber que se trata de um spam”, explica Heckerman.

O que torna os spams mais difíceis de serem combatidos é a disposição dos spammers em buscar novas formas de furar o bloqueio dos filtros. Os propagandistas virtuais mudam algo dentro da palavra (escrevem, por exemplo, “V1agra”), obrigando os programadores a inserir novos dados nos filtros para que os programas continuem a combater os spams com eficiência.

Os pesquisadores da Microsoft Research liderados por David Heckerman acreditam que o mesmo princípio pode ser observado na maneira como o HIV tenta furar a barreira do sistema imunológico. Pouco tempo depois de o vírus entrar no corpo humano, o HIV faz uma primeira tentativa de se reproduzir no no¬¬vo ambiente, o que resultaria, para o ser humano, contrair Aids. Mas a investida geralmente é frustrada, pois a configuração original do vírus é facilmente identificada e combatida pelos anticorpos. É como se esta primeira tentativa de reprodução fosse uma mensagem de e-mail que tenha como assunto “venda de Viagra”.

Porém, assim como um spammer, o vírus ainda encubado passa meses ou anos tentando fazer modificações em sua estrutura genética (transformar-se em V1a¬¬gra) para furar o bloqueio dos anticorpos e conseguir se reproduzir livremente no corpo humano.

O que os pesquisadores financiados pela Microsoft Research tentam provar é que, mesmo que tenha mudado a maior parte da sua cadeia genética para enganar os anticorpos, ainda assim o ví¬¬rus terá uma pequena parte do código que permanecerá original, pois tem a missão de carregar a informação básica sobre o HIV. “Estamos próximos de com¬¬provar a nossa hipótese. Sabemos que os anticorpos naturais não atacam toda a cadeia do DNA virótico, mas apenas alguns pontos específicos”, explica Heckerman.

Para o desenvolvimento da vacina, a grande incógnita é identificar estes “códigos-mãe” em meio a um fenômeno biológico complexo. A ferramenta usada pelo sistema imunológico para sabotar a reprodução do HIV é a proteína ALH (Antígenos de Leucócitos Humanos). Ela invade o vírus e retira o epítopo (fragmento de proteína responsável pela informação genética do vírus). O ALH, assim como um software, é ca¬¬paz de acumular novas informações sobre tipos de vírus. Para isso, no en¬¬tanto, precisa da “atualização” externa que a vacina pode fornecer.

Wikipesquisa

Ainda que os pontos-chave sejam en¬¬contrados no HIV presente em um indivíduo, a aplicação do processo em larga es¬¬cala enfrenta o desafio de conseguir mapear todas as mutações pos¬¬síveis do vírus e todas as possíveis configurações do ALH. Uma cadeia de ALH contém cerca de 3 mil aminoácidos, e a possibilidade de duas pessoas terem o mesmo ALH é de 1 em 10 milhões.

Para que os pesquisadores possam ter um banco de dados com todas as con¬¬figurações possíveis de epítopos e ALHs, a Microsoft Research desenvolveu o banco de dados PhyloD.net. Pesquisadores da área médica em todo o mundo podem ajudar a alimentar o banco enviando as informações genéticas de seus pacientes infectados com Aids. “Não conseguiremos fazer nada sem ter informações globais sobre características de ALH e epítopos presentes no processo de infecção da Aids”, alerta Heckerman. “Atualmente, temos centenas de colaboradores pelo mundo trabalhando nisso. Às vezes as pistas que encontramos nos conduzem a caminhos errados, mas isso é como a ciência funciona. Ainda não temos certeza se conseguiremos atacar os pontos vulneráveis na cadeia genética do HIV.”

Apesar disso, os cientistas estão na fase final de desenvolvimento de um protótipo de vacina. Heckerman ressalta os benefícios da pesquisa: “Hoje os coquetéis antivirais estão funcionando muito bem, mas são medicamentos ca¬¬ros e de difícil acesso para populações carentes. Com a vacina, podemos contribuir para a erradicação da doença na África, por exemplo. Com a vacina não é necessário acompanhamento do paciente no longo prazo, apenas uma injeção.”

Fonte: gazeta do Povo Online

Data de criação: 18/05/2010
Última atualização: 18/05/2010

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