HIV/Aids: quase três décadas de preconceito e desinformação

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11 de Abril de 2010 às 00:00

“Prazer prolongado”, “Sabores”, “Turbo”, “Extra fina (quase sem nada)”, “Estimula prazer feminino”. Os apelos publicitários para atrair a atenção para o uso da camisinha começam desde a embalagem do produto, repleto de criatividade dos fabricantes, que inovam as opções nas prateleiras. Mas prova de que o preconceito e desinformação acerca do vírus HIV estão incorporados até em pessoas que, à primeira vista, teriam esclarecimento mínimo no assunto, foi dada em rede nacional.

Na última edição do Big Brother Brasil 10, Marcelo Dourado,   ganhador do prêmio do programa de maior audiência na televisão brasileira, deu um banho de água fria nas campanhas sobre a doença e nas entidades que lutam pelo respeito aos homossexuais no país. Em uma tacada só, prestou   um desserviço à sociedade, quando afirmou que somente gays do sexo masculino transmitem a Aids.

Para completar a cena de alienação, Angélica, representante das lésbicas no “BBB 10”, reforçou a fala de Dourado ao afirmar que não se protege com a parceira porque mulher não transmite Aids, “só homem”. Não é novidade que a doença deixou de ter grupo de risco: com  a vida sexualmente ativa, qualquer pessoa pode contrair e transmitir o vírus, caso não se proteja.

Hoje o termo mais usado entre os especialistas é “comportamento” ou “situação” de risco. No caso das lésbicas, é difícil dizer qual soropositiva foi infectada por outra  mulher, porque nas notificações da doença aparecem em “bissexuais”. Mas a polêmica de Dourado suscita  o questionamento: como o brasileiro encara o assunto? Quando a Aids apareceu, no início dos anos 80 do século 20, a proporção da doença entre homens e mulheres era de 40 para um, respectivamente.

Atualmente, a incidência entre os dois sexos está quase equiparada de um para um. Mas o preconceito é parecido ao dos anos 80, e ainda leva muitos dos soropositivos a viver uma vida “dupla”, mentindo no trabalho e até em casa, explica a infectologista Lúcia Calich, com a experiência de quem trabalha no ambulatório de pré-natal da Maternidade Escola Januário Cicco.

“Atendemos diversas patologias de gestantes, mas no caso das que têm Aids, às vezes só descobrem no pré-natal e não contam à família. Por causa disso, para ir à consulta, precisam inventar mil histórias, criar um esquema especial para sair de casa”, relata.

A discriminação é tão presente que foi preciso criar uma lei (11.199/ 02) proibindo a discriminação a portadores de HIV/Aids. A justiça brasileira deu ganho de causa   a portadores do vírus em todos os processos movidos  por discriminação no trabalho, escola e rede de saúde.

A contadora Janaína  (nome fictício para preservar a identidade da entrevistada),  descobriu estar infectada durante a gravidez. A doença foi contraída do ex-parceiro, com quem morou durante um ano sem saber que ele era soropositivo.  “Quando contei do exame positivo, ele assumiu a doença. Brigamos e nos separamos”, conta.

Janaína voltou para casa dos pais, que por ironia do destino também são soropositivos e teve que se afastar do trabalho alegando gravidez de risco. “Meu pai está em fase terminal de vida, bastante debilitado, então não foi difícil contar. Mas ainda não sei como farei no trabalho, provavelmente não vou contar para  não ser demitida”, diz.

“A Aids é uma doença como qualquer outra, o doente não pode ser punido por estar doente”, critica Lúcia Calich. Ela lembra que qualquer médico que solicita o exame de HIV pode e deve informar o resultado ao paciente, mas  nem todos sentem-se preparados para o chamado “aconselhamento”.

“O preconceito às vezes parte do próprio profissional médico. Tem melhorado bastante com o passar dos anos, mas ainda acontece, principalmente no interior”, explica. É comum chegar pacientes nos hospitais de referência com o exame nas mãos sem saber que o resultado é positivo.  “Isso ocorre porque é uma consulta difícil, que precisa muitas vezes de uma equipe com psicólogo, assistente social”.

Camisinha até para soropositivos

O uso do preservativo é tão importante, que até mesmo quando os dois parceiros são soropositivos  , não devem abrir mão de usá-lo, segundo orienta a infectologista Lúcia Calich. Como o vírus se comporta diferente em cada organismo, há o risco da recontaminação. É o caso, por exemplo, de um casal em que um dos soropositivos já faz uso da medicação porque tem baixa carga viral e o outro não.

“Sem camisinha, o parceiro que que tem carga viral mais alta pode ser recontaminado pelo que tem baixa carga viral, e ficar ainda mais frágil ou vice-versa: o que estava mais saudável receber a carga viral de quem já está doente de Aids, e não apenas infectado com o vírus HIV”. Lúcia chama a atenção para o perigo de ser contaminado com outras doenças sexualmente transmissíveis.

“As DSTs andam juntas com a Aids, elas facilitam a transmissão porque  ocasionam lesões, abrem feridas”. Outro mito que ronda a cabeça de muitos brasileiro diz respeito à qualidade e expectativa de vida de quem tem HIV/Aids. No Boletim Epidemiológico de 2007 da OMS, pela primeira vez se observou dados sobre a proporção de pessoas que continuaram vivendo com Aids até cinco anos após o diagnóstico.

O estudo se baseia no número de pessoas identificadas com a doença em 2000 e aponta que 81% delas, no Nordeste, estavam vivas cinco anos depois de diagnosticadas. Nas outras regiões, os percentuais foram de 78%, no Norte; 80%, no Centro Oeste; 90%, no Sudeste; e 82%, no Sul. No Rio Grande do Norte, a campanha Fique Sabendo, da Secretaria de Saúde Pública do Estado (Sesap) é uma das medidas adotadas para combater a desinformação sobre HIV/Aids.

“A campanha alerta para a importância da prevenção assim como do diagnóstico precoce em se tratando de DSTs e Aids”, diz Sônia Cristina Lins, coordenadora  do Programa Estadual de DST/Aids. Com um diagnóstico antes da doença se instalar, ou seja, enquanto o paciente é apenas soropositivo, é mais fácil monitorar o momento exato em que ele pode precisar fazer uso dos remédios, o que geralmente é indicado pelo exame que detecta o nível de carga viral.

“Há feminização da epidemia”, diz infectologista

Se é difícil conscientizar os jovens hoje – que cresceram tendo conhecimento da Aids e seus perigos – o que dirão os especialistas sobre incutir o uso da camisinha na população acima dos 50 anos, que teve uma juventude sem HIV ou com a ideia de que a doença atingia apenas grupos específicos?

Das quase três mil notificações de Aids no RN de 1983 até hoje, a maioria foi diagnosticada em pessoas na faixa etária 20 a 34 anos, com  1.130. Em seguida, estão os doentes entre  35 a 49 anos, com 1.010 notificações, e em terceiro lugar no ranking, aparece a faixa etária do 50 a 64 anos, com   238 casos.

A origem da infecção muitas vezes é um enigma indecifrável para os próprios pacientes. “Investigamos a epidemiologia  e são muitas as histórias. Em muitas situações é do marido ou ex marido, em outras, eram usuárias de drogas que compartilhavam seringa. Outras nem sabem de onde foram infectadas”, diz Lúcia Calich.

Tecnicamente falando, há uma chamada “feminização da epidemia”, que se reflete na população infantil, caso não haja um acompanhamento adequado no pré-natal e parto. A boa notícia é que quando o poder público oferece as condições necessárias, o índice de transmissão de mãe para filho – chamada vertical- pode chegar a zero por cento.

Em um estudo interno no ambulatório da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), Lúcia Calich mostra que de 30 pacientes grávidas soropositivas atendidas, nenhuma das que voltaram para consulta após o parto tinha  o bebê contaminado.

Do total de pacientes atendidas hoje no ambulatório da MEJC,   12 são soropositivas. “É diferente um acompanhamento da grávida que sabia que era soropositva de uma que descobriu no pré-natal, porque pela própria condição de gestante, estão  emocionalmente mais fragilizadas”.

Homem  é quem mais compra camisinha

O estudante de Engenharia Elétrica, João Kleber Araújo, 21, garante: mesmo que a namorada faça uso regular do anticoncepcional oral, não abre mão da camisinha. “Tenho  mais medo de doenças”, diz. O pacote de preservativo com três unidades custa entre R$1,00 e R$4,00 em média.

Os valores variam de acordo com o “extra” oferecido pelo produto, como sabor, lubrificante, cor e textura. “Quem compra mais são os homens, em 95% dos casos. Quando são mulheres, geralmente são mais velhas, acima dos 30 anos”, comenta o gerente de farmácia Erinaldo Teixeira.

Mas e quando a relação já é considerada uma união estável de vários anos? O instalador Dênis Ribeiro, 26, há 11 anos foi morar com a primeira namorada. Com  acesso a  camisinhas grátis no posto de saúde mais próximo de casa, ele admite que usa o preservativo, mas não é sempre. “Sinto falta de palestras educativas sobre o assunto no meu bairro, porque meus amigos solteiros não usam”.

Estudos  realizados entre 1994 e 2002 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que foram feitas, em média, quatro campanhas de prevenção por ano no Brasil no período. A estimativa é de que se evitaram 600 mil infecções pelo HIV e um dos motivos foi o uso do preservativo, que aumentou  48% entre jovens. Segundo a OMS, os jovens foram influenciados pela campanha e distribuição pelo governo, que cresceu em 15 vezes.

A camisinha masculina representa quase 100% do uso do preservativo. No   Brasil,   o único país a distribuir a camisinha feminina, a “moda não vingou”.  “A adesão é pequena, não tenho nenhuma paciente que relate usar”, diz a infectologista Lúcia Calich. Um dos motivos, segundo ela, pode ser a dificuldade de manusear corretamente o produto.“ Nem falam nisso, sempre se fala em preservativo masculino”.

Fonte: Tribuna do Norte

Data de criação: 22/04/2010
Última atualização: 23/04/2010

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