Ele tem HIV. Ela não. Eles são pais

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26/02/2010
A lavagem de sêmen permite que soropositivos engravidem as parceiras sem infectá-las – ou ao bebê

A moça escondida pela sombra na foto ao lado tem um segredo. Seu bebê de 9 meses (saudável, lindo e candidato natural ao título de Mr. Simpatia) foi gerado de um modo especial, por uma razão especial. Em 2005, essa veterinária de 32 anos se casou vestida de noiva, com um terço enrolado nos dedos, numa das igrejas mais tradicionais de São Paulo. Isso é o que a mãe, o pai e o irmão dela sabem. Eles não sabem, porém, que o homem eleito por ela para ser o pai de seus filhos tem o vírus HIV. Nem imaginam, portanto, que o bebê que engatinha pelo chão da sala e se aventura pelos degraus da escada simboliza um novo momento da história da aids.

Se, até os anos 90, os infectados viviam a existência possível diante da iminência da morte, nos últimos tempos voltaram a planejar. Para eles, nenhum plano pode ser mais subversivo do que gerar um filho. Felizmente, em muitas ocasiões a medicina está a serviço da subversão. A prova é a história desse administrador de empresas de 42 anos que descobriu ter o HIV em 1994 e, no ano passado, conquistou o que parecia impossível. “Nunca imaginei que algum dia pudesse ter um filho. Mas passou um ano, depois dois, cinco, 15, e eu não morri”, diz. “Achei que já dava para acreditar que levo uma vida normal.”

Vencida a barreira emocional, ele tinha diante de si uma questão prática: como engravidar a mulher sem correr o risco de infectá-la? Ela descobriu um método de reprodução assistida capaz de solucionar o problema. Por meio de um processo chamado de dupla lavagem de sêmen, é possível gerar um bebê saudável sem que a mãe seja infectada. O tratamento só pode ser feito se o homem estiver tomando o coquetel contra a aids rigorosamente, tiver um bom sistema imune e estiver com carga viral indetectável no sangue. Era exatamente o caso do marido dela.

A técnica funciona assim: o esperma do homem é colocado numa centrífuga. Os espermatozoides são separados do sêmen. Um único espermatozoide bem formado é selecionado e injetado dentro de cada um dos óvulos extraídos da mulher (como mostra a ilustração na próxima página). Os embriões resultantes são colocados no útero. Como o HIV fica concentrado principalmente no sêmen, e não no espermatozoide, os médicos consideram o método bastante seguro. “Não existe na literatura mundial um único caso de mulher que tenha sido infectada dessa forma ou de um bebê que tenha nascido com o vírus depois de ter sido gerado por esse tratamento”, afirma Renato Fraietta, coordenador do Setor de Reprodução Humana do Hospital São Paulo, vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “O risco é praticamente zero.” Ainda assim, ele existe.

Com a união de casais sorodiscordantes – situação em que apenas um dos parceiros tem o vírus –, é recorrente o desejo de vencer a última barreira imposta pela aids: a procriação. O tratamento é mais simples quando a mulher tem o vírus e o homem não. Basta inseminá-la com o esperma e acompanhar a gravidez com cuidado para evitar a transmissão do vírus ao feto, chamada “transmissão vertical”. O mais indicado é que o bebê nasça por cesariana, receba a droga AZT nos primeiros três meses de vida e não seja amamentado pela mãe. Tudo fica mais complicado quando só o homem tem o vírus. Mesmo quando é perfeitamente fértil, a mulher precisa se submeter a todos os inconvenientes da reprodução assistida. Isso significa tomar hormônios para superestimular a produção de óvulos e anestesia para coletá-los. Além de encarar vários exames e, quando necessário, fazer repouso absoluto.

Mas não é apenas por isso que mais casais não procuram tratamento. “Os pacientes desejam ter filhos, mas não sabem que isso é possível”, diz a psicóloga Andrea da Silveira Rossi. Em sua tese de doutorado, defendida na semana passada na Unicamp, ela pesquisou as dificuldades de acesso dos portadores de HIV aos tratamentos de reprodução assistida. Entrevistou cerca de 140 gestores de programas de saúde e ouviu 47 portadores do vírus que tinham a intenção de ter filhos. Concluiu que falta informação. “Os gestores de saúde também demonstram desconhecimento”, diz.

A veterinária e o administrador de empresas do início desta reportagem resolveram acreditar que tudo daria certo. Descobriram, porém, que o tratamento – como todos na área de reprodução humana – é caro. Varia de R$ 15 mil a R$ 50 mil por tentativa de gravidez. De pesquisa em pesquisa, chegaram à Unifesp. Graças a uma parceria com a fabricante de hormônios usados para induzir a ovulação e aos honorários médicos cobertos pelo SUS, cada tentativa custa R$ 6 mil. Todo mês, o serviço abre novas vagas e, diz o coordenador Fraietta, não há fila de espera.

O programa brasileiro de aids é considerado um exemplo internacional. Paga até mesmo tratamentos estéticos para abrandar os sinais da lipodistrofia (um efeito colateral da doença e do tratamento que provoca má distribuição da gordura corporal). Mas ainda não oferece métodos de reprodução assistida. Em todo o Brasil, Andrea não encontrou nenhum lugar onde exista tratamento totalmente gratuito. A partir de março, porém, a lavagem de esperma começará a ser oferecida gratuitamente pela Secretaria Estadual de Saúde, em São Paulo. O método de fertilização adotado será menos sofisticado. Em vez de injetar apenas um espermatozoide num óvulo (o que reduz o risco de infecção da mulher), o serviço vai oferecer a inseminação artificial clássica. O sêmen lavado será colocado no útero da mulher. Apesar da lavagem, o risco de infecção é mais alto que no método baseado na injeção de um único espermatozoide por óvulo.

Um dos principais estudiosos do papel da reprodução assistida na vida dos portadores do HIV é o italiano Augusto Enrico Semprini, da Universidade de Milão. Ele coordenou o primeiro estudo que avaliou na Europa os resultados da lavagem de esperma combinada aos dois tipos de inseminação artificial. Passaram por um dos tratamentos 1.036 mulheres. Houve 533 gestações, que resultaram em 463 bebês nascidos vivos. As participantes foram submetidas a testes de HIV seis meses após o tratamento. Nenhuma pegou o vírus. “A probabilidade de infecção é próxima de zero”, escreveu Semprini no estudo publicado na revista científica Aids. Num outro artigo recente, ele escreveu que “a concepção produz um impacto positivo na qualidade de vida dos casais e restaura o senso de normalidade”.

A constatação é compartilhada por profissionais brasileiros. Desde 2006, o Centro de Reprodução Assistida em Situações Especiais, da Faculdade de Medicina do ABC, atende soropositivos que querem ter filhos. “Cerca de 50 casais já tiveram os bebês”, diz o coordenador Caio Parente Barbosa. A instituição compra a medicação na fábrica e oferece o tratamento por R$ 5 mil. Para aumentar a segurança, faz também um teste genético, chamado PCR. A um custo de R$ 700, ele pode detectar a presença do HIV nos espermatozoides.

A veterinária que abre esta reportagem conheceu o marido aos 22 anos e decidiu acreditar que ele não morreria tão cedo. Ela poderia ter filhos naturalmente com qualquer homem. Não com o que escolheu. Para realizar o desejo de construir uma família com ele, tomou injeções de hormônios durante 15 dias seguidos. Era ele quem cravava a agulha em volta do umbigo dela. Ela escondia o rosto sob uma almofada e chorava. Não podia ligar para a família e pedir colo. “Eles são preconceituosos e jamais entenderiam minha escolha”, diz. Os parentes do marido sabem que ele tem o vírus desde os 26 anos. “Nunca tive uma relação homossexual, mas namorei muitas mulheres”, diz ele.

Quando um teste de farmácia confirmou a gravidez, ela escreveu um cartão em nome da Dona Cegonha e colocou-o no correio. Foi assim que o marido recebeu a notícia de que, de certa forma, viveria para sempre. Enquanto ela contava essa história e tantas emoções afloravam naquela sala, o bebê não estava nem aí. Depois de comer sopa de mandioquinha e beber o suco de laranja-lima preparado pelo pai, tinha mais o que fazer no andar de cima. Esparramado no berço fofinho que toda criança merece.

Fonte: Revista Época

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Data de criação: 26/02/2010
Última atualização: 25/03/2010

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4 Comentários Publicados

  • shenia — 13/05/2010 @ 10:19

    é possivel um casal que tem a vida sexual activa o deste de um da negativo e o do outro positivo?


  • Aids Hiv — 18/05/2010 @ 10:11

    Shenia,
    é possível sim. os pesquisados ainda estão tentando entender o mecanismo dessa situação.


  • marcio — 06/08/2010 @ 23:42

    Gostaria de saber: Qual a probabilidade em porcentagem de um pai soropositivo e uma mãe não soropositiva gerarem um filho soropositivo?


  • Aids Hiv — 11/08/2010 @ 13:33

    Márcia
    sendo o pai o portador, é possível usar o método da lavagem de esperma, sendo esta uma das mais bem sucedidas soluções para evitar a transmissão. A lavagem de esperma pode, eventualmente, ser complementada com a injecção intracitoplasmática de espermatozóides. Ultimamente começou a utilizar-se uma nova técnica, ainda mais bem sucedida do que a lavagem de esperma, a qual consiste no aquecimento do sémen a temperaturas muito elevadas, de modo a destruir o HIV e outros vírus; todavia, como isto implica a perda de mobilidade do esperma depois é necessário recorrer à injecção intracitoplasmática para proceder à fertilização.
    leia o artigo completo: http://www.aidscongress.net/html/article533b.html?id_comunicacao=361



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