Cientista top quer mudar regra para gay doar sangue

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Um dos principais estudiosos sobre aids do mundo, o pesquisador do Canadá Mark A. Wainberg, acaba de riscar um fósforo em um dos principais barris de pólvora da medicina mundial.

Desde a década de 80, os homossexuais – mais especificamente homens que fizeram sexo com homens – foram proibidos de doar sangue, com a alegação de que, por serem mais numerosos nos dados de infecção pelo vírus HIV e mais vulneráveis à infecção, eles colocavam em risco os receptores do sangue doado. A aids completou 25 anos de transmissão, as mulheres, os heterossexuais e os idosos invadiram as estatísticas da doença e, atualmente, quase todos os países ainda mantêm a restrição total de doação de sangue por parte dos homossexuais.

Wainberg, ex-presidente da Sociedade Internacional de Aids, professor universitário do Canadá e o primeiro a identificar o antiretroviral (para o tratamento da doença) 3TC, acaba de assinar um artigo científico, publicado no jornal de medicina do Canadá (CMAJ), em que afirma de forma categórica: diante do novo cenário, “proibir totalmente os homens que fizeram sexo com homens de doar sangue é errado e em nada científico”.

No Brasil, a portaria que regula o setor foi revista em 2004 e o veto aos “homens que fizeram sexo com homens nos últimos doze meses” na doação de sangue foi mantido pelo Ministério da Saúde. Uma nova revisão das normas deve acontecer em breve, mas ainda prevalece entre as autoridades de saúde a necessidade da restrição de um ano para este público. Antes de doar sangue, cada pessoa responde a um minucioso questionário. Se for homem e assinalar “sim” para a pergunta “fez sexo com homem nos últimos 12 meses” a doação é vetada. A companheira do homem que fez sexo com homem no último ano, também é excluída. Nos Estados Unidos, se a pessoa do sexo masculino teve relação sexual com outro homem alguma vez na vida, ela não poderá nunca mais doar sangue.

A defesa

Para defender o fim do veto total à doação de sangue dos homossexuais, Wainberg e o colega pesquisador Norbert Gilmore defendem que a restrição foi necessária no início da epidemia quando não havia um controle do sangue doado (só no Canadá, cerca de 1.200 pessoas contraíram Aids em transfusões de sangue). Eles dizem que com as tecnologias adquiridas nos últimos anos, (que permitem verificar com muito mais segurança se o sangue doado está contaminado ou não) e a evidência numérica de que os heterossexuais também podem contrair a aids ou qualquer outra DST em caso de relação sexual desprotegida, a restrição de doação de sangue para homens que fizeram sexo com homens “perdeu o sentido”, afirmaram no artigo. Caso o homossexual tenha uma relação estável, a proibição fica ainda mais sem sentido, diante da hipótese de que um heterossexual pode ter uma atividade sexual mais promíscua.

Para eles, o único impacto da restrição é “aumentar a dificuldade de deixar os estoques dos bancos de sangue abastecidos”, sem influenciar “de forma significativa” na segurança dos hemocentros. Como a liberação total parece improvável, eles propõem a alternativa de “restrição parcial” aos homens que fizeram sexo com homens. Em vez da restrição total os bancos de sangue norte-americanos poderiam adotar medidas mais semelhantes às normas “brasileiras”, apesar dos pesquisadores ressaltarem que qualquer restrição para homossexuais monogâmicos não é eficaz.

Conflito de argumentos

O posicionamento dos pesquisadores do Canadá encontra defensores como o sanitarista brasileiro, ativista, pós-doutor em medicina preventiva e estudioso da aids, Mário Scheffer. “Não há nenhuma razão de ordem prática ou teórica que justifique hoje a proibição de qualquer pessoa de doar sangue. Isto passa o princípio de que para a pessoa ter aids ou hepatite C é preciso ter esta ou aquela orientação sexual e não um comportamento de risco, o que é totalmente errado”, afirma o Scheffer ao emendar: “um heterossexual promíscuo tem mais risco de transmitir aids do que um homossexual monogâmico. (A proibição) É um preconceito absoluto.”

Do outro lado da moeda, o diretor médico do Banco de Sangue do Hospital Sírio-Libanês, assessor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Segurança do Sangue e, no próximo mês, presidente da Sociedade Internacional de Transfusão de Sangue, Silvano Wendel, defende a manutenção da restrição à doação de homens que fizeram sexo com homens. “É uma pesquisa (a de Wainberg) que defende o fim da restrição, em meio a tantas outras que reforçam a importância (do veto deste público)”, diz.

Segundo ele, os homens que fizeram sexo com homens têm um risco acrescido de contaminação de doenças sexualmente transmissíveis, assim como as pessoas que têm tatuagem, por exemplo. “São critérios importantes para garantir a segurança do receptor do sangue.”

Os especialistas – que concordam com a restrição – dizem que nestes casos (homens que fizeram sexo com homens, pessoas tatuadas, usuários de drogas injetáveis ou profissionais do sexo) a “janela imunológica” – período em que o vírus não se manifesta no organismo e por isso não é detectado em exames – pode ser mais traiçoeira. Os testes mais modernos usados nos bancos de sangue brasileiros conseguem detectar o HIV após 17 dias da infecção. Antes deste período, o resultado seria um “falso positivo”. Estes grupos classificados de “risco acrescido” poderiam aumentar os casos da janela imunológica.

14 estudos científicos

O Ministério da Saúde diz usar 14 estudos científicos para embasar a decisão da restrição aos homens que fizeram sexo com homens. Um dos estudos, brasileiro e realizado em 1999, diz que caso não houvesse restrição na doação “a cada 100.000 doadores, em média, 2,1 teriam infecção recente que não seria detectada pelo processo rotineiro de triagem (entrevista e testagem)”. A mesma pesquisa afirma que caso a restrição seja mantida, a cada 100.000 doadores, 1,4 em média, teriam infecção que não seria diagnosticada. “Isto significa um aumento no risco biológico de quase 50%”, afirma o estudo.

Revisão da portaria

A portaria nacional que determina a restrição de doadores de sangue entrará em consulta pública talvez ainda este ano e a população (profissionais de saúde e também leigos) poderá opinar sobre possíveis alterações no conjunto de normas que regulariza a área.

Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), há muitos anos defende o fim do veto da doação de homens que fizeram sexo com homens por acreditar que esta determinação “perpetua o preconceito e a ideia de que a aids é uma doença de gay”.

“Diariamente recebemos e-mails e cartas de pessoas que se sentiram humilhadas e excluídas ao serem convidadas a se retirarem do banco de sangue, ao assinalarem que tiveram relação sexual com homens”, afirmou. “Muitos omitem esta informação ao responder o questionário.”

Já o infectologista Artur Timerman, que atua em vários hospitais de São Paulo, diz que “enquanto as pesquisas científicas não focarem como a transmissão do vírus da aids acontece, a restrição de doação de sangue por determinados públicos não pode terminar”.

“Hoje, todos os dados que temos são sobre as pessoas doentes. Sabemos que mais mulheres, idosos e heterossexuais adoecem de aids nos dias de hoje. Mas não temos a resposta para a pergunta: como foram infectados? Esta parte comportamental não é abordada nas pesquisas, de nenhum lugar do mundo. Por isso, a restrição elaborada há vinte anos é mantida.”

Data de criação: 07/06/2010
Última atualização: 07/06/2010

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