‘É necessário transformar a aids em doença crônica’, diz o descobridor do HIV, Luc Montagnier, em entrevista ao jornal El País

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12/04/2010 – 13h4013h40

Aos 78 anos, Luc Montagnier confessa que ainda precisa fazer a “revolução”, ou seja, conseguir que a pesquisa na Europa esteja acima de outros países como os Estados Unidos. Ele, em 2008, já contribuiu com o seu grão de areia para esta dura tarefa: conquistou o Nobel de Medicina por descobrir o vírus da Aids.

El País: Em 1993, o senhor afirmou que era necessário transformar a Aids numa doença crônica como a diabete. Por enquanto é uma doença controlada…
Montagnier:
Controlada em parte, não totalmente. Ainda não conseguimos fazer com que ela seja considerada crônica porque a pessoa sob tratamento terapêutico não está curada. Uma infecção é crônica se o sistema imunológico a controla, como no caso dos 20% dos infectados que nunca ficaram doentes. E este controle fez com que as novas gerações esquecessem que a Aids ainda existe. Há uma sexualidade descontrolada na qual as drogas e o álcool são preocupantes.

El País: Seu companheiro de prêmio, Harald zur Hausen, obteve o Nobel por descobrir o vírus do papiloma humano causador do câncer de colo de útero e os adolescentes já estão sendo vacinados. Não aconteceu o mesmo com a Aids.
Montagnier:
A vacina preventiva não é o problema mais atual, os testes fracassaram. Pelo contrário, a vacina terapêutica que será administrada às pessoas já infectadas pode sim ser útil para se livrar do vírus. Mas para conseguir isso são necessários três fatores: lutar contra o estresse oxidativo para reanimar o sistema imunológico, estimulá-lo mediante algumas proteínas do vírus, e atacar as formas do vírus que são invisíveis para o sistema imunológico e para o tratamento, que são conhecidas como depósitos do vírus. Com esses três requisitos, é possível erradicar a infecção.

El País: Poderia se pensar que, depois de conquistar o Nobel, fomentar tratamentos antioxidantes como a papaia fermentada significa entrar num terreno menos científico. Mas em 2002, no próprio Vaticano, o mesmo tratamento já foi recomendado a João Paulo 2º para minimizar o Parkinson.
Montagnier:
Nos anos 90, descobrimos a existência de um estresse oxidativo muito importante nas infecções causadas pelo vírus da Aids no início da infecção, e por isso ampliamos as pesquisas para outras doenças. Em 1997, organizei um congresso sobre estresse oxidativo: câncer, Aids e doenças neurodegenerativas, o que significa que tratar o estresse oxidativo não é um problema menor, mas, sim, científico. A partir disso me interessei, junto com o doutor Hikiyachi, pelos extratos naturais de plantas antioxidantes e pela papaia fermentada. Naquela época ainda não existia a triterapia. Agora a minha ideia de curar a Aids e os antioxidantes fazem parte dessa pesquisa.

El País: Os antioxidantes afetam a variabilidade das células porque é impossível frear esse processo de oxidação, fundamental no câncer e na Aids.
Montagnier:
Os médicos ignoram que o estresse oxidativo, as oxidações do DNA, causam o câncer. Pensa-se nos produtos carcinogênicos específicos, mas esse estresse por si só pode induzir a mutações dos cromossomos.

El País: Como atuam os antioxidantes?
Montagnier:
Toda infecção induz ao estresse oxidativo. Este estresse oxidativo, por causa da insuficiência de defesas antioxidantes, é uma luta, um equilíbrio perpétuo. Temos produtos antioxidantes, que fabricamos e ingerimos – as vitaminas, o Resveratrol, o vinho tinto – que ajudam nosso organismo a lutar contra o estresse oxidativo, e alguns fatores que são ao mesmo tempo sintoma, causa e consequência dessas doenças crônicas só aparecem quando não conseguimos combatê-lo.

El País: Ou seja, é preciso ingerir vitaminas.
Montagnier:
As vitaminas são uma parte dos antioxidantes e não podem compensar o estresse oxidante. É necessário recorrer a uma mistura complexa de produtos naturais. O extrato de papaia é um exemplo, mas é preciso ter cuidado para não cair no puro marketing. Os médicos precisam receitar esses produtos. As pessoas não podem comprá-los nos supermercados achando que quanto mais tomarem, melhor. Ao contrário, os antioxidantes podem estimular a oxidação quando em doses elevadas.

El País: Naquela visita ao Vaticano, o senhor expressou suas críticas quanto à posição da igreja católica em relação aos métodos contraceptivos.
Montagnier:
Existem duas atitudes possíveis diante do medo que o homem tem da mudança e da morte. A primeira consiste em voltar ao dogma religioso e segui-lo. E a segunda, aceitar a mudança porque os conhecimentos científicos são maiores do que quando as religiões foram fundadas. Há três séculos, acreditava-se que o Sol girava em torno da Terra, ou que os espermatozoides eram homúnculos que cresciam dentro do útero. Os fieis deveriam se adaptar aos novos conhecimentos. Mas há valores universais dessas religiões que devemos preservar. A igreja deveria aceitar que o homem, com seus conhecimentos, pode controlar a contracepção.

Tradução: Eloise De Vylder

Fonte: El País / UOL

Data de criação: 22/04/2010
Última atualização: 23/04/2010

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